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a large body of water surrounded by trees

Modelagem para mitigar: o desafio das florações nos reservatórios hidrelétricos


Reservatórios criados para empreendimentos hidrelétricos são, ao mesmo tempo, infraestruturas energéticas e ecossistemas aquáticos altamente sensíveis. Esta característica torna problemas ambientais um risco operacional, não apenas um impacto ambiental.


Nestes ambientes, a proliferação excessiva de algas e macrófitas aquáticas é um exemplo destes riscos. Florações de algas e macrófitas não surgem ao acaso. Elas são favorecidas por uma combinação de fatores cada vez mais frequentes no Brasil, como: aumento da temperatura da água; estiagens prolongadas; existência e operação de reservatórios em cursos d’água; e o aporte excessivo de nutrientes a partir de sistemas de esgotamento sanitário, agricultura e uso do solo em geral.

É apenas um problema ambiental?


Quando isso acontece em reservatórios hidrelétricos, cujo objetivo é a geração de energia de forma estável e contínua, o problema deixa de ser apenas ambiental e passa a ser operacional. A proliferação de algas e macrófitas pode causar:


-> entupimento de grades e sistemas de captação;
-> paradas forçadas de turbinas;
-> aumento expressivo de custos com manutenção e limpeza;
-> redução da confiabilidade da geração de energia;
-> conflitos com outros usos da água, como abastecimento, navegação e recreação.


Outro impacto, menos “badalado”, ocorre sobre o ciclo do carbono nos reservatórios. Estes ambientes são sistemas biogeoquímicos ativos, onde processos físicos, químicos e biológicos interagem continuamente. Quando esses sistemas entram em estados de alta produtividade biológica, como ocorre durante florações intensas, os fluxos de carbono podem ser significativamente alterados.


Durante uma floração, algas e macrófitas realizam fotossíntese de forma acelerada, removendo dióxido de carbono da água e da atmosfera e convertendo esse carbono em biomassa orgânica. À primeira vista, esse processo pode ser interpretado como um sequestro temporário de carbono. No entanto, em reservatórios com longos tempos de residência e baixa velocidade de escoamento, grande parte dessa biomassa não é exportada para jusante, permanecendo acumulada no próprio sistema.


O momento mais crítico ocorre após o pico da floração. Quando algas e macrófitas entram em senescência e morrem, a biomassa passa a ser decomposta por microrganismos. Esse processo devolve o carbono ao sistema aquático e à atmosfera. Em ambientes bem oxigenados, a decomposição ocorre predominantemente de forma aeróbia, resultando na emissão de dióxido de carbono. Contudo, em regiões profundas ou pouco misturadas do reservatório, onde o oxigênio é limitado ou inexistente, a decomposição segue rotas anaeróbias, produzindo metano, um gás com potencial de aquecimento global muito superior ao do CO₂.


Mudanças climáticas, crescimento urbano desordenado e intensificação do uso da terra estão tornando florações mais frequentes, mais intensas e mais difíceis de controlar. Por outro lado, o setor elétrico opera com alta exigência de disponibilidade e previsibilidade na geração de energia. Desta forma, ignorar a dinâmica ecológica dos reservatórios significa aceitar riscos crescentes à segurança energética.

O que pode ser feito?

A solução empregada na maioria dos reservatórios é a seguinte: Esperar ocorrer a floração e remover mecanicamente plantas e algas quando elas já causaram impacto. É uma solução cara, reativa e insuficiente. Resolver o problema exige trabalhar de forma preventiva. Quando entendemos como a hidrodinâmica, a qualidade da água, o clima e a operação do reservatório interagem, passamos a enxergar as florações não como surpresas, mas como processos previsíveis e gerenciáveis.


Na EcoNumérica acreditamos que resolver este problema é converter o problema ambiental em gestão de risco energético. Neste contexto, trabalhamos com a avaliação, prevenção e mitigação dos impactos da proliferação de algas e macrófitas aquáticas sobre a operação e a confiabilidade da geração hidrelétrica, por meio de análise integrada que envolve hidrologia, hidrodinâmica, limnologia e a operação do empreendimento.


Separamos a solução em diversos horizontes:

Curto prazo – manter a usina operando (gestão do risco operacional)


Aqui o objetivo não é “resolver” o problema, mas evitar parada de máquinas. As soluções mecânicas são caras, mas ainda assim mais baratas que parar a operação devido as florações. A operação hidrológica inteligente é mais complexa, envolvendo modelagem hidrodinâmica e limnológica. Aqui usamos o modelo matemático IPH-ECO, desenvolvido pela empresa em parceria com a UFRGS.


a) Soluções mecânicas:
-> Grades autolimpantes e reforçadas na tomada d’água
-> Barreiras flutuantes direcionais para desviar macrófitas antes da captação
-> Pontos dedicados de coleta mecânica (skimmers, dragas leves)
-> Planos de limpeza preventiva baseados em previsão, não em reação


b) Operação hidrológica inteligente
-> Pulsos artificiais de vazão (flushing) em momentos críticos
-> Evitar longos períodos de nível estável + baixa velocidade, que favorecem macrófitas
-> Ajustar regras de operação em períodos quentes e de maior potencial para eutrofização.

Médio prazo – reduzir a recorrência (controle do sistema)


Aqui o foco é quebrar o ciclo de crescimento. Se a primeira etapa funcionou, o sistema está estável e o momento emergencial passou. O manejo ambiental é importante para controle de carga interna, enquanto o monitoramento preditivo busca integrar alertas com plano de ações claros e factíveis que possibilitem evitar a surpresa.


a) Manejo ambiental:
-> Remoção seletiva de biomassa (antes da senescência)
-> Evitar decomposição no reservatório (menos nutrientes reciclados)
-> Destinação da biomassa:
-> Compostagem; biodigestão; coprocessamento energético


b) Monitoramento preditivo
-> Sensoriamento remoto (satélite + drone) para mapear manchas
-> Indicadores simples e robustos:
-> tempo de residência; temperatura superficial; clorofila-a / índice de vegetação aquática
-> Sistemas de alerta operacional integrados à operação da usina.

Longo prazo – atacar a causa (onde quase ninguém quer mexer)


Este ponto é o mais delicado, mas acreditamos ser o mais importante. O empreendedor responsável pelo reservatório hidrelétrico pode, e deve, ter participação ativa em discussões e planejamento de gestão de recursos hídricos na bacia onde o empreendimento está localizado.


Atuamos nas duas frentes (pelo empreendedor e pelo órgão de gestão) integrando a visão de diversos usuários frente ao mesmo recurso (água). Aqui, a solução é um planejamento que respeite os usos e seus impactos sobre a ecologia do ambiente aquático, buscando reduzir os episódios e gerenciar o desenvolvimento existente a nível de bacia hidrográfica.


a) Nutrientes na bacia (fonte do problema):
-> Remoção seletiva de biomassa (antes da senescência)
-> Evitar decomposição no reservatório (menos nutrientes reciclados)
-> Destinação da biomassa:
-> Compostagem; biodigestão; coprocessamento energético


b) Repensar critérios de licenciamento e operação
-> Hoje:
-> Licenciamento olha qualidade da água no papel
-> Operação olha energia no curto prazo
-> O que deveria mudar:
-> Limites operacionais ambientais (tempo máximo de residência, níveis críticos)
-> Metas de desempenho ecológico do reservatório
-> Reconhecer florações como risco sistêmico à geração, não “evento ambiental externo”

Como resolvemos tudo isso?


Atuamos na solução destes problemas com uso de modelagem matemática integrada, com modelos matemáticos autorais e metodologias aprovadas no meio técnico-científico:

-> Hidrodinâmica: velocidades, estratificação, zonas mortas
-> Qualidade da água: nutrientes, carbono, oxigênio, temperatura
-> Biologia: macrófitas, algas, peixes, decomposição
-> Operação: regras de nível e vazão


A ferramenta de modelagem, quando bem aplicada, permite:
-> testar pulsos de vazão antes de aplicar, garantindo a efetividade da solução hidrodinâmica
-> definir janelas críticas de risco, auxiliando na avaliação preditiva dos episódios e facilitando o gerenciamento deles
-> justificar tecnicamente mudanças operacionais perante ANEEL e órgãos ambientais fiscalizadores

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